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Ideologia de gênero.

Desde 2018, o termo “ideologia de gênero” tem se tornando cada vez mais popular no debate entre muitos brasileiros. Por ser um assunto que divide opiniões no cenário público e político, elaboramos esse artigo para trazer luz a esse tema.  Mas afinal, você sabe o que esse termo significa?  O que ele realmente quer dizer?

O que se costuma chamar de “ideologia de gênero” é uma referência a uma proposta de inclusão no ensino escolar de assuntos relacionados à identidade de gênero, sexualidade, diversidade e orientação sexual a fim de educar os jovens para o respeito às diferenças.

Contudo, sempre que esse termo é citado, ele trás consigo uma crítica aos conceitos dos estudos de gênero e suas aplicações. Por isso, de forma geral, a “ideologia de gênero” é uma expressão utilizada como ferramenta política de críticos negativos às teorias de gênero que não aceitam a diversidade do comportamento sexual humano e são contra essas discussões. Em outros palavras a “ideologia de gênero” foi inventada com o objetivo de inviabilizar o diálogo através do medo e da desinformação.

O termo “ideologia de gênero” apareceu pela primeira vez em um documento da igreja intitulado “Ideologia de gênero: seu perigo e escopo” na Conferência dos Bispos do Peru de 1998. Em 2003, a Igreja Católica publicou outro texto eclesial mais extenso, que abordava: ” Os limites da educação sexual no âmbito escolar “.

Essas e muitas outras publicações religiosas foram feitas em nome da integridade da família brasileira, como se a tal da “ideologia de gênero” fosse a responsável pela destruição da moral e dos bons costumes e não o alto índice de infidelidade, divórcios ou violência doméstica, fatos que realmente destroem famílias em nosso país.

No Brasil.

Em nosso país, o termo “ideologia de gênero” começou aparecer em nosso cotidiano em 2004. Seu ponto de partida foi a proposta do projeto “Escolas Sem Partido” do então Procurador do Estado de São Paulo Miguel Nagib. Seu principal objetivo era combater a existência de uma “ideologia de esquerda” nas discussões em sala de aula.

A ideia era que nenhuma visão política, ideia e opinião poderiam ser ensinadas aos alunos, pois isso poderia interferir na liberdade e no direito dos alunos de aprender.

Na época, esse projeto foi defendido principalmente por parlamentares evangélicos na assembleia legislativa, pois esse grupo acreditava que a tal da “ideologia de gênero” era uma doutrina que colocava em risco os conceitos tradicionais de família. Aos olhos dessas pessoas, os estudos de gênero no ambiente escolar são um meio pelo qual os “esquerdistas políticos” atacam os valores morais da família tradicional brasileira. 

Um desses parlamentares, o então candidato a Presidência da República, Jair Bolsonaro, chegou a apresentar durante uma entrevista à Rede Globo de televisão, um livro que supostamente seria parte do chamado “Kit Gay” que teria sido distribuído nas escolas pelos ideólogos de gênero da esquerda. Uma mentira!

O livro “Aparelho Sexual e CIA” apresentado pelo candidato nesta ocasião, nunca fez parte do projeto “Escola sem homofobia” e muito menos foi destinado para distribuição em escolas publicas.

A editora Nova Escola e o próprio ministério da educação fizeram publicações que desmentiram essas afirmações.

Já o projeto “Escola sem homofobia” que tinha como objetivo ensinar a tolerância à diferenças e evitar futuras agressões a jovens nunca chegou a vigorar, pois foi vetado pela Ex-Presidente Dilma Rousseff, em 2011. Para ler o material do projeto “Escola sem homofobia”, clique aqui.

Depois dessa onda de Fake News sobre a “ideologia de gênero” e o “kit gay”, em abril de 2018, o Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional uma lei municipal de Novo Gama-GO que proibia o debate de gênero nas escolas entendendo que a lei vai contra o direito da igualdade, de liberdade de aprender e estimula censura nas escolas.

Mas, será que essa tal “ideologia de gênero” é realmente tão perigosa? Para tirar essa dúvida, nada melhor que informações científicas e teóricas a respeito desse tema, assim, podemos contribuir com a compreensão e com o debate sobre esse tema.

A ideologia de gênero não existe como conceito teórico.

De acordo com o Centro de Estudos Multidisciplinares Avançados da Universidade de Brasília, o termo ideologia de gênero não é considerado academicamente como um conceito teórico. Segundo pesquisas realizadas pela instituição e levantamentos científicos e bibliográficos, a expressão é uma sintaxe – isto é: um termo inventado, que se tornou um slogan de ampla divulgação de ideias devido à sua influência e praticidade.

Mas o que isso significa na prática? Significa que a “ideologia de gênero” não existe! Esse termo, nada mais é que uma invenção para se referir ao conteúdo da educação sexual. Em outras palavras, esse termo foi criado para criar pânico e suprimir a educação dos métodos científicos e sociais que lidam naturalmente com as várias manifestações do comportamento sexual humano. O psicólogo e educador Eliseu Neto, demonstra de forma clara em seu artigo “Não existe ideologia de Gênero“, que não há nenhum sinal de “ideologia de gênero” na Base Nacional Curricular Comum do Brasil.

A “ideologia de gênero” não quer acabar com família!

As medidas de educação defendidas por pessoas tidas como defensoras da “ideologia de gênero” não buscam o fim das famílias tradicionais, muito menos a “doutrinação” de crianças para a homossexualidade. Na verdade, esse movimento visa retratar as diferenças sociais entre todos os gêneros, ao invés de negá-las, para falar por todos os grupos e proteger seus direitos na sociedade.

Não existe nenhuma intenção de impor estilos de vida, escolhas ou mesmo determinar a orientação sexual de outras pessoas. O objetivo também não é doutrinar crianças e jovens nas escolas a irem além do aprendizado e dos valores que trazem de casa. O objetivo principal é provar que é natural falar de gênero em sala de aula – dentro dos princípios da educação moral – para cultivar adultos conscientes das diferenças e capazes de respeitar e compreender a realidade dos outros.

Para finalizar, gostaria que você, caro leitor, pensasse por alguns segundos… Se quando você era criança, ao aprender sobre o respeito aos índios, você não “virou índio”, porque então ao falarmos sobre o respeito a questões gênero e sexualidade uma criança viraria homossexual? Pense sobre isso!

Referências:

CARTA CAPITAL. STF declara inconstitucional lei municipal que proíbe debate de gênero nas escolas. Disponível em: <https://www.cartacapital.com.br/educacao/stf-declara-inconstitucional-lei-municipal-que-proibe-debate-de-genero-nas-escolas> Acesso em 12: de setembro de 2021.

G1. Dilma Rousseff manda suspender kit anti-homofobia, diz ministro. Disponível em: <http://g1.globo.com/educacao/noticia/2011/05/dilma-rousseff-manda-suspender-kit-anti-homofobia-diz-ministro.html> Acesso em: 13 de setembro de 2021.

NETO, Eliseu. Não existe ideologia de gênero. Disponível em: <https://eliseuneto.wordpress.com/2018/04/22/nao-existe-ideologia-de-genero> Acesso em: 12 de setembro de 2021.

NOSSA CAUSA. Afinal, o que é IDEOLOGIA DE GÊNERO? Disponível em: <https://nossacausa.com > Acesso em: 12 de setembro de 2021.

SOARES, Wellington. Nova Escola. Conheça o “kit gay” vetado pelo governo federal em 2011. Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/84/conheca-o-kit-gay-vetado-pelo-governo-federal-em-2011/>. Acesso em: 12 de setembro de 2021.

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