Luto em massa: Por que entramos em luto quando uma pessoa famosa morre?

Luto em massa: Por que entramos em luto quando uma pessoa famosa morre?

A morte do apresentador Augusto Liberato – o famoso Gugu –, na última sexta-feira, 22/11/2019, deixou o país inteiro em luto. Após a notícia, inúmeras mensagens comovidas e que demonstravam afeto – escritas por artistas, amigos, familiares e fãs do apresentador – tomaram conta das redes sociais.

Alguns famosos, quando morrem, causam um luto coletivo, que alcança o país inteiro. Você alguma vez já se perguntou por que tamanha comoção acontece? O que será que leva tanta gente a sofrer com a morte de uma pessoa que nunca esteve em seu convívio físico? Muita gente imagina que é apenas uma questão de solidariedade, mas será que é apenas isso? A resposta para essa pergunta é: não é só isso.

Apesar de muitos fãs nunca terem tido qualquer contato próximo com o Gugu, ele fez parte da vida de muitas pessoas, estando presente em momentos importantes, como a infância ou a adolescência. Quem nasceu antes dos anos 90 e nunca ouviu falar da famosa “Banheira do Gugu”? ou então daquele quadro “De volta para minha terra”. A trajetória televisiva do apresentador acompanhou o crescimento de uma geração que se reunia aos domingos para se entreter com sua programação.

Apresentador Gugu Liberato

Não é incomum ouvir pessoas que o tinham como parte da família, especialmente na época em que ele semanalmente se fazia presente. O apresentador emocionava pessoas com seus quadros, ensinava e encantava as crianças com suas músicas ( Meu pintinho amarelinho, cabe aqui na minha mão… ♬ lembra?). Apesar da inexistência de um contato físico e próximo, a presença do apresentador era suficiente para criar algum tipo de conexão emocional.

Outro fator que contribui para o sentimento de luto por uma pessoa famosa é a identificação com essa pessoa. Algo que se torna possível quando fã e o famoso estão na mesma faixa etária, são moradores ou cresceram numa mesma região ou entendem que alguns aspectos da história do artista se assemelham com a história pessoal de quem o segue, por exemplo.

A morte do apresentador Gugu Liberato, devido a um acidente doméstico, e a morte de outras celebridades (A princesa Diana, a Hebe, o cantor Gabriel Diniz e tantos outros) nos lembra que, de fato, a morte é um acontecimento inevitável, que alcança, inclusive, pessoas jovens, ricas e com condições de saúde e segurança que não são a realidade da maior parte da população.

Luto em massa por famosos mortos.
Ricardo Boechat, Gabriel Diniz, Princesa Diana, Ayrton Senna, Hebe Camargo.

Um aspecto que também pode favorecer o estado de luto, é a lembrança de uma perda recente, especialmente quando o motivo da morte do famoso, se assemelha ao de alguém próximo. Nesse sentido, é absolutamente normal que aqueles que perderam amigos ou familiares em acidentes domésticos ou de trânsito, voltem a sentir uma tristeza parecida com a do luto pessoal.

O alcance de publicações feitas em redes sociais é grandioso. Nos dias de hoje, diferente de como se vivia no passado, as mídias sociais são usadas como uma forma de expressão, para sermos ouvidos e, acredite, essa é uma necessidade de muitos, ainda que de uma maneira inconsciente. Inclusive, acredita-se que o luto quando expressado nas redes sociais permite que as pessoas estabeleçam uma espécie de união e rede de apoio, pois encontram outras que também compartilham da mesma tristeza. Compartilhar emoções e encontrar pessoas que se identifiquem com elas nos desperta a sensação de ser parte de um grupo, de estar incluído. Este efeito nos mobiliza de muitas maneiras.

Uma ocasião que marcou, particularmente a minha vida no que se refere a morte de famosos, foi a morte dos integrantes do Mamonas Assassinas. Na época, em 1996, milhões de crianças e adolescentes entraram em uma espécie de luto coletivo devido a morte do grupo em um acidente de avião. Eu mesmo (Paulo), então com 11 anos de idade, lembro de sentir uma dor significativa, como se realmente tivesse perdido algum familiar.

Grupo Mamonas Assassinas.

A ideia de que todos morrerão um dia é e sempre vai ser uma questão delicada que mexe com cada um de nós de um jeito diferente. A morte de pessoas públicas, dada a repercussão e envolvimento com algum aspecto de períodos de nossas vidas ou de nossas histórias nos atinge de alguma maneira – e depois de tudo que escrevemos aqui, faz sentido que atinja, não é?

A morte é algo que sabemos ser comum e inevitável a todos, mas, paradoxalmente, o luto é um dos assuntos menos comentados e um dos que menos gostamos de pensar. De qualquer forma, assim como acontece quando alguém que conhecemos morre, é importante lembrarmos que a tristeza tende a passar. No caso dos familiares, a superação da perda pode demandar também tratamento psicoterapêutico. O processo de luto não é algo padrão e que ocorre igual para todo mundo. Contar com uma rede de apoio – seja ela composta por pessoas da família, amigos ou colegas – é algo bastante importante nesta fase.

Leia também: Reflexões sobre o processo de luto.

Referências:

https://www.megacurioso.com.br/

Sobre os autores:

Paulo Alencar é psicólogo Cognitivo Comportamental (CRP 06/137862), tem Formação em Terapia Comportamental Cognitiva em Saúde Mental, pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). É pós-graduando em Terapia Cognitivo Comportamental pelo ITC – Instituto de Terapia Cognitiva. Realiza atendimento clínico para adolescentes, adultos, idosos e LGBTQIA+. Seu consultório se localiza na Rua Augusta, 1939 em São Paulo, próximo ao metrô Consolação. Possui interesse em música brasileira / flashback , cinema, parques, esportes radicais e tecnologia. Contato: (11) 99735-1268, e-mail, Site, facebook, Instagram, Linkedin

Alex Valério é psicólogo comportamental contextual (CRP 06/134435). Especialista em Terapia Comportamental pela Universidade de São Paulo (USP). Realiza atendimento clínico para adolescentes e adultos. Está localizado no bairro da Bela Vista, em São Paulo, próximo ao Metrô Trianon Masp. Possui interesse em música brasileira, poesia, literatura, cinema e tecnologia. Contato: Facebook; Instagram; E-mail.

Tags: | | | | | | | | | |