Porque o medo vai fazer você votar em A ou B no segundo turno?

Porque o medo vai fazer você votar em A ou B no segundo turno?

As pesquisas sempre sintonizam um momento específico do pleito eleitoral. Mas o resultado das eleições em si, só é conhecido após a contagem dos votos. É justamente confirmação ou a mudança desse voto que tentarei explicar neste artigo.

A Universidade McGill, do Canadá, realizou um estudo publicado em 2015 que descobriu a região do cérebro que é acionada quando tomamos a decisão de votar no candidato A ou B

Segundo esse estudo, a região ativada no momento dessa decisão é o córtex orbitofrontal lateral. Entretanto, o estudo identificou dois padrões: quem combina diferentes fontes de informação e toma decisão com base nelas (portanto, de maneira mais racional) apresentava essa área do cérebro em perfeitas condições. Já quem escolhe com base em apenas um atributo que considera mais atrativo tinha danos nessa região.

Mas além de fatores físicos ou neurológicos, há elementos psicológicos que influenciam a escolha de um candidato, como por exemplo, a necessidade de aprovação, a necessidade de pertencer a um grupo e medo do castigo.

Aprovação e pertencimento.

O ser humano é um ser social e como tal, precisa de apoio e reforço ter a segurança de que aquilo que ele fará é a coisa certa. Este fenômeno acontece psicologicamente em tomadas de decisão, inclusive com o voto. Grande parte das pessoas precisam sentir um apoio coletivo, por isso, elas costumam votar no candidato que estiver sendo mais propagado.

É comum que as pessoas tomem uma decisão não porque acreditam naquilo, mas porque a opinião dos pais e/ou dos amigos tem grande peso.

Muita gente afirma que vai votar no candidato A, mas na verdade está propenso a votar no B. Muitas pessoas na verdade tem apenas um receio de assumir posição por não saber lidar com as críticas.

Isso é popularmente conhecido como “efeito manada”.  Se os amigos mais íntimos ou familiares são mais de esquerda ou de direita, provavelmente a pessoa terá opinião parecida.

Isso pode ser comparado, por exemplo, com os hábitos da juventude. Um jovem cujos amigos são todos fumantes sentirá que, se ele não aderir ao hábito de fumar, estará excluído do grupo. Nós humanos somos seres sociais, vivemos em grupo e, portanto, precisamos da aceitação do nosso grupo. É essa necessidade de aceitação que interfere diretamente no nosso comportamento.

Por isso, o voto de manada é algo que faz parte da nossa cultura.  Existem parcelas da população que gostam de votar em quem está na frente das pesquisas. A necessidade de fazer parte de um grupo explica inclusive o comportamento em bolhas e os resultados eleitorais que mostram que em determinadas regiões o voto é mais à esquerda, em outras, mais à direita

Medos.

Nem só racionalidade se faz um voto. Como já escrevi em outro artigo, o voto emocional pesa bastante na hora da decisão. É por isso que os medos também exercem um papel importante na decisão do eleitor. No voto em manada, além da necessidade de apoio e aprovação, há também receio de errar sozinho: caso a decisão não se revele acertada, a ‘culpa’ deixa de ser individual e passa a ser coletiva.

Outros medos também têm papel importante. Um estudo realizado pela Universidade de Nebraska, nos Estados Unidos, expôs voluntários a imagens assustadoras, como um homem com uma aranha no rosto, e a ruídos altos. As pessoas que tiveram mais reações físicas a esses estímulos (por exemplo, pele arrepiada) tenderam a ter opiniões mais conservadoras – apoiando, por exemplo pena de morte. E quem reagia menos a essas situações tinham posições mais progressista.

Outra pesquisa realizada pelo psicólogo Yoel Inbar, professor da Universidade de Toronto, no Canadá, chegou a resultados semelhantes. Ele agrupou pessoas de acordo com uma escala de repugnância – ou seja, de acordo com o nível de nojo que essas pessoas sentiam. E submeteu esses voluntários a um questionário político. Concluiu que os mais conservadores politicamente são aqueles que têm mais nojo das coisas.

O relatório dessa pesquisa nos revela que tais pessoas são predispostas a “evitar conviver com aqueles com quem não estão familiarizadas”, “abdicar de uma maior liberdade sexual” e “aderir à práticas mais tradicionais da vida social”. O nojo, portanto, evoca um tipo de medo.

O medo está muito presente na campanha eleitoral brasileira, isso explica por que ambas as campanhas no segundo turno apostam tanto em “não vote em A” e “não vote em B” – em vez de “vote em mim”

A tendência de votar no “menos ruim” ou votar em um para que o outro não se eleja foi estudada pelo cientista político Jon Krosnick, professor da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Ele constatou que quanto mais uma pessoa não gosta de determinado candidato, mais ela se sente engajada a participar do debate eleitoral, mirando seus esforços para eleger aquele diametralmente oposto ao tido como “inimigo”.

É isto que explica o fato de que os políticos tentem sempre enfatizar as características negativas de seus oponentes.

E por fim, existe também o medo da punição. Nossa cultura nos educou dessa forma, posso citar como exemplo a religião que diz que quem não viver corretamente será punido. Os pais que colocam a criança desobediente de castigo ou lhe tiram presentes. E assim por diante. Na hora do voto, essa questão também aparece: se eu votar em A em vez de B, poderei ser punido pela minha escolha?

Fake News.

Tomar uma decisão é algo bastante complexo e um novo elemento que pode prejudicar esse processo são as famosas Fake News bombardeadas em massa pelas redes sociais e pelos aplicativos de trocas de mensagens.

Conforme mencionado no artigo “Como um boato se espalha”  os boatos ou fake news, geralmente surgem para condicionar o pensamento ou o comportamento das pessoas com um propósito específico. Outro problema é que muitas pessoas tendem a acreditar em teorias conspiratórias para reforçar pontos de vistas que elas já aprovam.

Este viés cognitivo é chamado de “distorção da confirmação” e estudado por acadêmicos como o psicólogo Christopher French, professor da Universidade de Londres.

Por isso, é muito difícil desmentir a Fake News. Quando geralmente a verdade vem à tona, muitas pessoas negam a verdade chamando essas notícias reais de “Fake News”, afinal, é mais fácil acreditar em um boato que reforça seu ponto de vista do que lidar com a realidade e ter que reestruturar toda a sua maneira de pensar e enxergar a realidade.

Outra razão que contribui para a disseminação de teorias conspiratórias é a nossa predisposição de achar que grandes acontecimentos precisam de grandes causas. Assim, para qualquer notícia mais relevante, procuramos explicações fantásticas – o que, convenhamos, na vida real, nem sempre é verdade

Tags: | | | | | | | | | | | | | | | |